CHÃ DE CAMARÁ ESTRELA DE OURO

No início da estrada que leva à antiga Lagoa Seca, hoje conhecida como Tupatininga, tem um lugar que durante muito tempo ficou conhecido como Três Vendas. É que ali, nos anos vinte do século passado havia três mercearias que forneciam alimentos aos moradores dos engenhos da região. atualmente não existem mais as três vendas, só uma delas se mantém. Hoje o lugar é mais conhecido como Chã de Camará. Camará é uma flor muito brava, venenosa se ingerida em forma de bebida ou mastigada. Não tem mais na região. Mas o lugar ficou com o nome. Ali foi construída uma casa bonita, com janelões e alpendres. A partir dos anos cinquenta foi morar lá Severino Batista da Silva, que ficou conhecido como Mestre Batista, por causa das festas          que ele costumava fazer no terreiro da casa. Eram os famosos forró de rabeca e também havia brincadeira de Cavalo Marinho. Foi uma brincadeira que ele aprendeu de um tio seu e também das suas andanças no mundo da Mata Norte.

Batista era o Mestre do Cavalo Marinho de Chã de Camará e ali foi a universidade de muitos mestres que hoje estão tocando rabeca, organizando novos grupos de Cavalo Marinho. Um dia Mestre Manuel Salustiano disse que a sua universidade foi a Zona da Mata Norte, pois foi nessa região que ele aprendeu tudo o que sabia. E foi em Chã de Camará que Mestre Salú aprendeu muitas coisas. Assim também aconteceu com Mestre Zé Duda, com Biu Roque, Mestre Grimário, Mestre Mariano Teles, Mestre Antonio Teles, Mestre Biu Alexandre, Luiz Paixão, Siba e muitos outros. Chã de Camará sempre foi um ponto de Cultura.

Embora tenha sido um grande organizador do Cavalo Marinho, a grande paixão do Mestre Batista foi o Maracatu Rural. Era uma questão de estar no sangue da família. Uma vez ele disse a um jornalista do Jornal do Commércio, lá do Recife, que o seu avô, no final do século dezenove já saía de caboclo e com um outros caboclos. Era um maracatu. Mas como no começo da história do Maracatu de Baque Solto havia muita violência, sua mãe não queria que ele saísse com os caboclos. Em respeito à sua mãe, ele só vestiu a roupa de caboclo de lança depois da morte dela. Em primeiro de janeiro de 1966 o Mestre Batista fundou o Maracatu Estrela de Ouro de Aliança. Em pouco tempo a disciplina, a organização e a beleza da apresentação do Estrela de Ouro encantaram as pessoas de Santa Luzia, Tupaóca, Chã do Esconso, Condado, Itaquitinga, Aliança. O Maracatu Estrela de Ouro de Chã de Camará, Aliança foi formando caboclos e aumentando o brilho dos carnavais da região, até Nazaré da mata e depois o Recife. Ocorreu uma renovação na brincadeira, nas apresentações dos maracatus.

Manuel Salustiano, que foi morar em Olinda, em 1975 fundou o Piaba de Ouro. Juntamente com Mestre Hemeregildo,  e Mestre Salustiano, Mestre Batista foi fundador da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco no ano de 1990. Eram treze maracatus, hoje são mais de cem. O tino empresarial de Mestre Salu, a liderannça de Heremegildo em Nazaré da Mata e a disciplina e o respeito de Batista formaram a perfeita união para dar início ao processo de transformar o caboclo de lança que atemorizava as crianças e os povoados até chegar o momento de ser um símbolo da bravura, da luta, da beleza do povo da Mata Norte e do povo de Pernambuco, o Leão do Norte.

Chã de Camará, lugar da universidade da cultura, universidade organizada pelo Mestre Severino Batista da Silva, o Mestre da arte de Caboclo de Lança, Mestre da arte do Cavalo Marinho, Mestre da organização da Cultura popular.

Bibliografia.

VICENTE, Ana Valéria – Maracatu Rural, o espetáculo como espaço social. Recife: Editora Associação Reviva, 2005.

SILVA, Severino Vicente da – Festa de Caboclo. Recife: Editora Associação Reviva, 2005.

SILVA, Severino Vicente da – Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, a saga de uma tradição.   Recife: Editora Associação Reviva, 2008.

Texto escrito por Severino Vicente da Silva

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *