Mestre Salustiano

Mestre Manuel Salustiano, o Mestre Salu, aquele matuto nascido em Aliança a 12 de novembro de 1945 e, crescido, veio morar em Olinda, tornando-se famoso por sua maneira de tocar a sua rabeca.

Salustiano foi menino de engenho, não o Menino de Engenho que foi José Lins do Rego, mas o menino pobre de engenho, quando os engenhos já eram pobres e os seus senhores tinham virado, desde muito, fornecedores de cana. Melhor dizendo, Manuel Salustiano foi  um menino de sítio.

Manuel Salustiano nasceu filho de João Salustiano, em uma época que a Usina Aliança dominava economicamente a região. Quase todos os “engenhos” botavam cana para ela, pois já não moíam, eram fornecedores de cana. Muitas das casas dos senhores haviam sido derrubadas, outras estavam abandonadas, pois os seus proprietários viviam no Recife, indo até à usina para acompanhar o que os gerentes e administradores faziam.

João Salustiano cortava cana e aprendera a tirar sons da rabeca. Vivia alegrando os bailes nos terreiros, quase sempre, na frente da casa dos administradores ou daqueles que trabalhavam com maior liberdade e podiam oferecer uma festa, vez por outra. Assim, João Salustiano exercia sua arte enquanto criava seus filhos, entre eles Mané, que queria tudo, menos acabar a sua vida cortando e sendo cortado pela cana.

Mané Salustiano acompanhava o pai e aprendia as coisas das brincadeiras. A rabeca era o instrumento de tudo nos bailes que ocorriam em toda a Zona da Mata: a rabeca era usada para o forró, para acompanhar as cantigas do Cavalo Marinho. Em um tempo em que não havia luz elétrica e só os ricos podiam ter acesso às vitrolas, João Salustiano era muito requisitado nos finais de semana. E o menino-rapaz Manuel Salustiano, Mané, como se pronuncia na região, foi aprendendo com o pai, e com outros, a dança do Cavalo Marinho, as poesias do Cavalo Marinho, as músicas dos pastoris, as canções dos pastoris, os “pantin” dos manulengos, os volteios das cirandas, as batidas do coco, os passos guerreiros dos caboclos. E foi aprendendo. Tocou no banco do maior mestre de Cavalo Marinho daquela época, o Mestre Batista, ali nas festas no terreiro do Sítio Chã de Camará. E tanto aprendeu que aprendeu que não podia ficar tocando e dançando de engenho em engenho, de terreiro em terreiro, como seu pai, como Biu Roque e outros.

Depois de ver o Mestre Batista fundar o Maracatu Estrela de Ouro, migrou para Olinda. Vendeu picolé, foi ajudante de pedreiro, cuidou de jardim de prefeito. E foi guardando dinheiro e, como muitos, invadiu terreno para construir uma casinha. Tempos depois tudo foi posto no papel do cartório.

No carnaval de Olinda encontrou o “Lord de Olinda”, personagem que se tornou mito naquele carnaval, e que compreendeu o seu talento e o apresentou a quem podia o apoiar. Tocando nas feiras, conheceu Leda Alves que levou o seu brinquedo para mostrar nos colégios, no mês do folclore, este, o mês de Agosto. Depois conheceu Ariano Suassuna.

Fundou em 1975 o Maracatu de baque Solto Piaba de Ouro. O Maracatu de Baque Solto já aparecia no carnaval do Recife desde a década de 1930, mas foi subjugado, visto como debitário do maracatu de Baque Virado. Outra tradição, outra história. O povo tem muitas histórias e não apenas aquela contada pelos “meninos de engenho e das casas grandes”. Mestre Salustiano sempre amou o maracatu, aprendeu desde cedo a admirar esses gigantes que o povo da Mata Norte criou e que assustava os meninos mimados e as moças e, ao mesmo tempo, animar a sua vida com a alegria de ser um guerreiro.

Até os anos 80 os caboclos do Maracatus de Orquestra, também conhecidos como Maracatu Rural ou Baque Solto eram temidos. Mas Mestre Batista, do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, Biu Hermenegildo do Maracatu Águia Misteriosa de Carpina e  Mestre Salustiano, do Maracatu Piaba de Ouro de Olinda decidiram fundar a Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco, e o fizeram de tal forma que hoje esse brinquedo é uma manifestação cultural pernambucana das mais importantes.

Manuel Salustiano foi recebeu o título de Doutor Honoris Causa por seu saber cultural. Apresentou-se em Palcos nacionais e em diversas nações europeias e americanas. Pernambuco deu-lhe o título de Patrimônio vivo da Cultura.

Mestre Manuel Salustiano, um homem que fez mais pelo povo da Mata Norte de Pernambuco do que todos os barões e baronetes criados pela orgulhosa e decadente sucralocracia pernambucana a serviço do império.

Texto adaptado do TRIBUTO A MESTRE SALUSTIANO, publicado em http://www.biuvicente.com/blog/?p=322 em 3 de agosto de 2008.

Texto escrito por: Severino Vicente da Silva

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