Pretinhas do Congo de Goiana

Todos os anos os que frequentam o carnaval de Goiana, cidade que fica a uma hora de viagem desde o Recife na direção do norte,  além dos Caboclinhos que fazem a  beleza visual da festa criada pelo povo, tem a possibilidade de encontrar uma manifestação cultural, a Pretinhas do Congo de Goiana.

Como nós sabemos uma das primeiras razões da ocupação de Goiana foi a implantação do cultivo da cana de açúcar. Os portugueses quando chegaram a essas terras pensaram em usar os habitantes locais como trabalhadores no cultivo da cana e na produção de açúcar nos engenhos. As guerras com os tabajara e outras tribos tornou inviável essa ideia e, então decidiram trazer para esse trabalho povos trazidos da África. E então cresceu muito o comércio humano, gente livre tornada escrava para o trabalho nos engenhos do Brasil, nas plantações em Cuba, Jamaica, América do Norte, depois no Peru e em quase todas as regiões do continente americano.  Goiana cresceu com o trabalho desses africanos e seus descendentes.

Os engenhos de Goiana fizeram a riqueza de muitos e alguns foram feitos barões do Império brasileiro por conta da produção de seus engenhos. Entretanto, a chegada das usinas promoveu o fechamento de muitos engenhos de banguê. As usinas são indústrias mais modernas e não precisam de escravos, mas de trabalhadores assalariados e, esta foi uma das razões para que a Câmara de Goiana proclamasse o fim da escravidão em março de 188, meses antes que a princesa Isabel assinasse a Lei João Alfredo, mais conhecida como Lei Áurea, em maio de 1888.

Alguns homens ricos de Goiana criaram a Companhia de Fiação e Tecidos Goyana em 1894. Muitos ex escravos e seus filhos foram trabalhar na fábrica e, como não eram alfabetizados trabalharam na estiva do porto, no transporte do algodão, dos tecidos. Outros viviam da pesca no Rio Goiana que se forma do encontro dos rios Capibaribe Mirim, Siriji e Tracunhaém, fazendo parte do grande comércio da cidade.

No início do século XX, logo após a proclamação da República, o Brasil começava uma nova fase, agora sem escravos e com liberdade. Essa liberdade é que permite a mudança do entrudo português no carnaval brasileiro. E se em 1907 aparece a Tribo Caboclinho Cahetés de Goiana, no ano de 1930, desfila, pela primeira vez o bloco Pretinhas do Congo de Goiana, fundado por Manoel de Miguel. Eram crianças que mostravam como era vida de seus avós e bisavós no tempo da escravidão. Manuel de Miguel devia ser um homem que sabia da importância do trabalho e a necessidade dos mais jovens guardarem a lembrança de seus aantepassados, o que deles aprenderam. Manuel de Miguel estava criando uma tradição que já tem 82 anos de desfiles para lembrar que a riqueza da terra tem sido construída pelos mais pobres da terra.

Hoje dois grupos cuidam de manter essa tradição: a Pretinhas do Congo de Goiana que está organizada no Baldo do Rio Goiana, e a Pretinhas do Congo de Carne de Cava. O grupo do Baldo do Rio é animado pelo trabalho de Mestre Val, que segue a tradição reconstruída por Pai Heleno e, em Carne de Vaca, Dona Carminha, filha de Mané Pixixiu continua mantendo a tradição iniciada por Manuel de Miguel.

As Pretinhas de Congo de Goiana são um monumento da memória da cultura da Mata Norte.

Bibliografia

SILVA, Severino Vicente da.  Uma nação africana na Mata Norte – Pretinhas do Congo. Olinda: Associação Reviva, 2011.

Texto escrito por: Severino Vicente da Silva

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